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domingo, 30 de junho de 2024

 


Ao amor conserva-o,
atenta no prazo de validade,
que nada tem a ver com a idade,
e come todo o amor antes que o amor acabe.

Raquel Serejo Martins


o sol esgueira-se com um torpor manso

sobre a casa da aldeia

lá longe, onde a memória me sorri

como uns braços pequeninos de criança.

eramos inteiros na agudeza de um verão sem calendário

lembras-te? ensinavas-me que o amor

é equação que altera as estações.

era outono e era verão, era natal e era verão

era inverno e era verão.

 

e sem aviso   arde o tempo sob a pele

e há questões que me sobem ao coração

 como se o sol arquivado fosse uma seringa

 - que de quando em vez -

atravessa as veias e as incha de um plasma

que transborda de lucidez

clara e lavada como as casas mais a sul.

 

antecipo ao olhar um garrote apertado

para não cegar desse rasgão que se alinha

como aves     ao meu corpo desentendido de distância.

 

digo-te    da matemática só sei uma conta simples:

dividir o amor em pequenas taças e guardá-las

ciosamente    para o frio mudo do inverno.


foto: Luísa Henriques

domingo, 16 de junho de 2024

 


Descer à terra e provavelmente, de bruços, encontrar água...
Maria Quintans

demoro-me na distância

que vai de uma palavra à outra.

ponho-as lado a lado

comparo-lhes a luz e as feridas.

um sol dominante, como um cavalo

rasga o abacateiro do jardim

atravessa os quadrados da vidraça

 e sobe-me até ao último músculo da face.

sobre a mesa uma clareira aberta

desenha círculos sobre círculos

onde pedras e frutos se acumulam.

exponho-me à rota de colisão

quando os verbos soltam as velas intempestivamente

 

mas o corpo é um casulo sem intenção

as mãos permanecem inocentes no seu exílio.

 

nada se guarda que distribua as sementes

à generosidade das águas.

 

despida, sem abrigo, confio à terra a possível ressurreição.

 

foto: Andrea Kiss

domingo, 5 de maio de 2024

                                                              Se soubesses mãe 

                                                 como as aves esvoaçam aos domingos!

 

De quem é esta pele que me cobre os anos

de onde este vento que sopra a ocidente

esta lonjura que segura a minha mão?

 

O sol nascente na moldura

a preto e branco

como os teus olhos

que me acompanham a vigília

me encorajam os lábios do dia

despidos de gramática.

É salgada a saliva sobre as coisas

quando a ausência nos funde de silêncio.

Esta herança   legitimamente minha

antiquíssima

como a célula que reclama o seu domínio

é polpa madura   

                 matéria invisível

que retém a luz dos fragmentos

como se ainda me amanhecesses

uma alegria sobrevivente

numa persistente e demorada rota maternal.

 


foto: Andrea Kiss

quarta-feira, 17 de abril de 2024

... somos mantimento de clareiras sem pronúncia.


Sobre as ruínas

paira uma sombra ténue.

Demoro-me no lugar onde as árvores

se inclinam sobre verbos desatentos.

Exponho os pés

e ouço ainda o verão no saibro avermelhado

sob o tráfego dos nossos passos

quase clandestinos

quase imateriais

como a voz que vem do rio

e já não respira na nossa boca.

 

Não há céu para a claridade.

Pressinto-o nos azulejos da estação

na clareira aberta do silêncio

que sobressalta de ausência os carris tomados de dor.

 

"Sinto-te a presença suave no calcanhar dos dias

como sensação de te pressentir mais perto ainda.

acerca-se-me calma a viagem por que anseio

sem a catástrofe do indesejado regresso...!"

 

Neste mapa demorado na memória

o poema cai    desamparadamente.

Somos amantes mudos

inquilinos de um futuro sem candeia.

 

Sobre as ruínas nenhuma ave

nenhum milagre.


07 de abril 2024
Aveiro/Lisboa

Foto:Eva Brzowska

quarta-feira, 13 de abril de 2016



" Tantas coisas desapareceram
que nunca mais voltará a desaparecer
nada do que merece viver. "

Paul Éluard



sou hoje a passageira alheada de um comboio
sem paragens. se parar o olhar
a terra ecoa ainda o suor de luas  longínquas.

mas chove e não há sombra de variação
sob o tremor que as mãos desaguam no silêncio.
o tempo é voraz. tem consigo a profecia e a poeira:
o veneno que amputa a palavra  absoluta 
 - a música inteira.

dizem que é assim.
nenhuma ferida se alicerça em lugares
onde os versos libertam aves.

do lado esquerdo
há cidades infinitas. os muros  imaculadamente brancos
tremem e explodem-me no peito.
perpetuam-se como mastros definitivos
à velocidade da carruagem  e da ventania.

a luz tem o peso da memória que nos entra pelos olhos.
 foto: laurence winram

segunda-feira, 13 de abril de 2015

                   ...
as horas em que vigiamos o escuro
os sítios nenhuns das imagens
a ligeira mudança que rsgataria
o abandono, todo o abandono

José Tolentino Mendonça



mil vezes larguei as sandálias ao  pé das raízes do que fomos
mil vezes descrevi os pássaros das margens
que voavam em círculos sobre a loucura.
tantas outras    na maioridade das estações
com a saliva aflita dos sentidos
rasurei a negrito os espólios da linguagem pronunciada.

por essa altura
os homens à beira dos 4o abandonavam-se à ilusão da cidade.
desciam a rua com a metade da sua solidão deitada à vida
e a outra metade
[ de uma possível alegria]
a pedir filhos ao futuro.

pobres de nós   aves permanentes de um céu cego
filhos de um verbo inconfidente
no centro oficioso de uma  póstuma voz.
dedicadamente sobreviventes
divididos pela mesma noite sem febre
juntos no desamparo desta sombra deslizante no seu reflexo.

já é tarde para nos empenharmos a descodificar
o que vive sob a língua.
a vida consome-se  no espaço cada vez mais exíguo
das breves felicidades.


e eu já te disse adeus mil vezes.
no silêncio mais puro que assedia as últimas metáforas.
o silêncio que não escreve a nossa morte.


foto anke. merzebach

domingo, 16 de novembro de 2014


Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia

de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se
desse quente silêncio.

Herberto Helder




sem ti o sol nasce  e apaga-se.

as ruas alongam-se
como gramática de verbos intransitivos.
as mulheres que passarem
irão  descalças abrir o seio à sede dos filhos.
porém    na nossa casa     os lábios estão magoados
do calor ausente da tua língua.

olha mãe   vê como  vivo ainda
e me exalto no que existe nos teus olhos.
vê como o meu sangue te procura
quando as aves anunciam um medo para o inverno!

 a alma  progride humanamente
 numa órbitra de palavras semeadas sobre a terra
o corpo permanece
constantemente inquieto
atento às multidões atraídas para o movimento das chuvas.    

 na antecâmara do coração

( onde fiz cálculos imprecisos)


 há um silêncio talhado com a medida  de todas as coisas.

foto: autor desconhecido retirada da web

domingo, 4 de maio de 2014

...
 Minha mãe, se eu te perder,
Farei de branco o meu luto:
Que é Santa toda a mulher
Que dá poetas por fruto!
José Régio



o vestígio
é a invisível mão de um anjo
que abre o instante a todos os mapas.           

na porta, as giestas correm o sangue de uma sílaba maior
o pulsar do poema a sufragar o teu rosto.

voz de manhãs límpidas
ou a tua mão  que toca  a terra
materna e múltipla
como o choque sísmico de uma luz?

do outro lado do vento
a mudez das altas montanhas
humedece as macieiras de sombra
inunda os ossos de um abismo temerário
até ao abandono.

hoje é o teu nome    a pureza aberta do silêncio
a ressuscitar-me as brancas mãos


um espelho a dividir-se  sob uma fenda de sol.


tela: paulo ossião

domingo, 13 de abril de 2014


“e há palavras que são fogo e são raiz”



não tenho estrelas
nem o ofício do esplendor
apenas o gesto.

da  geometria  a esboçar um coração antiquíssimo
trago-te a infância pulsante de uma rosa.
não há sombra que suspenda o movimento
nem sede que esmague a matéria que rendilha a sua forma.
ouve-lhe a rebentação marítima
a evocação dos barcos

 diante de nós

a palavra deslaça o lábio sangrante
o alarme da dor dos náufragos
acende as lágrimas, alpendre do ultimo sono.

eramos crentes
ignorantes do medo contra o coração.
ainda não sabíamos que o relógio lunar
avança o inverno impetuosamente
e , habitantes de um texto obscuro
deslizamos  silenciosos para a noite amotinada.

pressinto-te  o rosto  e um coração de pássaro.

e tanto mar  no precipício do gesto.



tela; istvan sandorfi

sexta-feira, 13 de abril de 2012


havemos de falar da chuva que se antecipa ao nascimento.
também do sopro que amanhece os nomes nos dentes
quando a inutilidade das mãos certifica a transparência da sombra.
 não foi ontem que o sol ardeu a última árvore
a luz ainda te esmaga num esplendor de delírio
se uma borboleta te eleva ao pensamento.
então    a grande copa   vulto que se assombra de recolhimento
desobedece ao silêncio que gravita sob os séculos da minha boca.
dir-me-ás que o tempo é uma água que retalha a memória da luz
mas o olhar não se esgota se existimos com crateras inflamáveis junto ao sono.
e a água    meu amor     é o idioma que fustiga o sangue
quando uma flor negra ensaia o poente contra o chão.
ainda não sabes    mas os dias são uma árvore que nos prolonga na dor
desde a comoção da primavera até ao joelho do medo.
e tudo o que se agita  entretanto  é movimento impossível contra o archote da morte.
então   este lugar   onde os lobos avançam para um coração assim exposto
perverso fado no absoluto flagelo de esgotados paradigmas
assim    a árvore   um corpo inteiro lançado à linguagem do rio.
e  para sempre este nó de pequenas sílabas: o teu nome preso aos dentes
 como se dele extraísse o mais humano ângulo da sombra.

ft: katia ch

domingo, 22 de janeiro de 2012


a todos os que passaram pelo marés
e povoaram a minha ausência...


 agora que mergulho no luto da minha sombra
e nele me restauro  inteira, para que a palavra sangre o dilema do silêncio
pouso o pulso aberto na força cega que arde violenta na garganta do poema.
inclino-me sobre a explicação  do mundo
e um breve pressentimento  da migração das aves.
ergo  a outra mão, diurna, na combustão perseguida do papel e escrevo.
como  a mãe que segreda ao filho a memória do amor.

trago um beijo terno e o desejo de um ano feliz

tela: gudiol

quarta-feira, 13 de abril de 2011

e quantas vezes te ouço chamar
                                                    na tragédia vulcânica do meu sono?






pouso as mãos no rigor deste lamento contemporâneo

que lambe o longe.

a minha nuca estremece o chão dos passos gastos na tua face.

são tantos os incêndios que a noite semeia sobre a brandura

e nada se extingue. é de fulgor doente este silêncio.

nos olhos quase mortos de brancura

quando a manhã acorda a sinuosa linguagem da luz

o tronco de uma velha árvore

ergue-se ao magnetismo de um céu já cego.

e o dia espanta-se, magro e descarnado

na austeridade de um azul sem espólio.

o amor guardado numa algibeira rota

semeia o presente de uma voz que se apaga

na intermitência do seu reconhecimento

os rasgões da insónia pontuando a carne da tristeza que se abre às coisas

e eu, pássaro longínquo

carrego a desordem do vento na geografia devoradora do rosto.



se chega a noite e o corpo estremece pelo sexo da madrugada

recolho o corpo encapelado na nudez do mundo:

a mão fria de esclarecida escuridão

em andamento branco na crosta despovoada do mar.



dias e noites, noite após sono

veias inchadas de memória:

alimento de poemas atónicos

a dividir em dois um corpo de mulher.



tela: gudiol

domingo, 27 de fevereiro de 2011




envelheço com as mãos presas ao lugar de todas as ausências.


não há viagem que sirva como casa definitiva ao nome que as percorre

nem argumento provisório se aos dedos aflitos

só a memória se recolhe.

e não há rosto para o rudimento da verdade.

a palavra que me reflecte para lá do espelho

é a inventada circunstância de qualquer peregrinação

tão triste de anunciações: uma poalha negra

no intervalo que se ergue às minhas pálpebras.

e todos os gritos são pretéritos irrepetíveis

a face esmagada de um anjo do dizível.

envelheço com a boca muda, na salga da palavra impossível

até que se destruam as fábulas.


dobro os joelhos: as mãos de outros dias

como uma brandura atravessada de ruína.



ft: katia ch

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011




libertas, as palavras surgem como lírios negros.


talvez devesse lamber o medo que chega com a tarde

quando as gaivotas voam em círculos de delírio

sobre o esboço do meu corpo em abandono.



um pouco tonta, a voz que estala sem algemas

não pede razões para a angústia de viver

a solidão de um nome aberto à luz do quase.

e quase sempre é logro

e quase sempre é tarde.


entre o mar e a cidade, refém de uma qualquer probabilidade

adormeço as formas da sombra no movimento imperfeito das ruas

arquivo o grito das aves na demanda de um silêncio que unifique a noite.


venho do longe. de um rio de rosas brancas cansadas de lucidez.



ft: lilya corneli

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011





nunca o deserto escrevera a sua sede, dissera,
nenhuma memória trabalha o corpo queimado na saliva de um naufrágio.
e no entanto, as mãos em concha a suportar um vento íngreme no corpo
o núcleo de uma semente fora do tempo
como um poema irreprimível a abrir o ventre.

um vaivém de luas de Janeiro em vigia pelo chão
e um pássaro é sempre um pássaro.
dilatado de luz
polpa de fruto maduro nas cercanias da carne

há fêmeas nesta língua contrária à exaustão dos dias.
multiplica-nos eternidades nas correntes espasmódicas das marés
geme versos guardados de um poema por cumprir às tuas mãos.

nunca o deserto escrevera a sua sede, dissera.
uma língua a doer, inconfessadamente,
rosa e carne aberta à noite
osso e árvore a nascer uma ausência de ti.

t: lempicka

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010







das metáforas que me vão sovando os dedos, apreendo a desalinhada tessitura que alimenta o opaco circular do sangue sob a pele. encontro aves. ambíguas. desajustados asas na planura da extensão deste céu aberto sem referências cardeais. e um chão sem prodígio. delírios de enxofre onde o mundo cava olhos sem regresso. sem portes grátis, a vida é quase sempre uma viagem de ventos deserdados. um dia é o norte e um pulmão de febre a uivar nos pulsos, o outro é oeste e uma artéria de insónia em golpes feridos de lucidez.
e eu, que me desfaço em renúncias, descanso o olhar possível de uma cidade de neve a progredir no corpo. viro-me a sul. no resguardo da tardia infância dos sentidos. refaço-me de noites onde acolho os seus ombros mordidos e nus. desmesuradamente nus. deslumbro-me então com o arco íris onde o silêncio adia as sombras de um pinheiro desencantado sobre o branco e invento um corpo aberto e inteiro ao reencontro. no exacto momento em que me multiplicas de sede..

t: gaudio

quinta-feira, 15 de julho de 2010






desenha-se um corpo na precisão de uma cidade.
anónimo, como os verbos vazios onde os nomes se curvam
à exactidão das mãos contra as quais envelhecemos.
descobrimo-nos reduzidos a uma voz transfigurada
onde o medo obedece à voragem de uma espécie de veneno sobre espelhos.
de nadas é o lugar do futuro que rebenta sob estigmas
e se cola à pele como um luto ilegível.

o mar devolve-nos à desatenção do branco
e legendamos um sono que alastra em círculos
a iludir a pulsação da noite.
a meio caminho o desapego do céu.
dormimos como a sombra do amor sobre as paredes.
a existir no corpo que a ninguém pertence.

tela: klimt

terça-feira, 22 de junho de 2010





escrevi as horas todas dentro do corpo.
as mãos, vagarosas, como pretexto de chegadas.
julguei dizer-te que o relógio do tempo lança à cinza
raízes minúsculas de um coração tangente ao mar
mas o golpe de uma asa é uma lâmina
que se lança à pele sem o aviso dos comboios.
cerro os olhos a orientar a confusão
ao dizer o gesto simples que pesa à luminosidade
do amor: as mãos cheias de susto rente à bússola da solidão.
nada se revela a escrever um rosto.
guardei tudo o que possuí.
e tudo é água. e membrana que reveste a costela de um pássaro.



tela. marc chagall

domingo, 13 de junho de 2010




refugio-me nas palavras pronunciadas sobre um corpo em fuga.
qualquer manhã serve à confissão dos vestígios que a noite lega
silenciosamente quando escolhe um recanto para morrer.
nada deixou de um antigo fulgor de mãos inocentes
nem sinais onde intentar outra respiração.
nenhum nome na boca. nenhuma cintilação largada de mundo.
apenas sede. e a imolação do pensamento.
com a língua das histórias infelizes
costurada à pele. regressamos tristes para mais uma noite legível
carregados de pranto na sólida memória das viagens.
iniciamos a marcha definitiva a construir o corpo do esquecimento
na corrente incansável dos rios.
os braços longos como margem das ausências.
um sorriso a morder-se a si mesmo:
a explicação incompatível de estranhas pedras de sangue.


t: j. pomar

quinta-feira, 3 de junho de 2010







todas as noites restituo ao silêncio as rosas do teu corpo:
nenhuma estrela acende esta casa tão alta
onde escondemos palavras envergonhadas
em lençóis de solidão.
saímos vulneráveis e nus
para os ombros da luz com o choro das aves nocturnas
a revelar as mãos retalhadas da sua imobilidade.
envelhecemos, quase sempre, na perturbação comum dos pássaros
quando as memórias do pólen os confunde.
à porta - no estilhaço da claridade
a voz cai, estranhamente nítida
quando o corpo se dobra à origem da palavra
e nos perguntam : - porque morrem as rosas?


ft: paulo s.