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terça-feira, 21 de maio de 2024

                            quem nos resgata a esperança  

de que as mãos são equilibradas guardiãs ?



Percorrido o caminho

a meio desta ponte medieval

continua a ser difícil atravessar o medo.

Na boca a cegueira das palavras

que encharcam de sangue o olhar em frente.

Enquanto o vento nos sacode os ossos em desassombro

o rosto

tingido da última claridade

transfigura-se

quando pressente o bisturi

tangente ao coração.


Foto: Murakami

domingo, 31 de janeiro de 2021


                                                                                              Tudo o que me dói são poemas inacabados


voltar a casa

ser raiz e haste à hora do dilúvio

gemer o vento quando a morte me ombreia os passos

e desvirtua as mãos

consentidas de noite e de flagelo.

 

já não viajo

(viajar é sonhar em frente)

resta apenas o vago desejo de itinerários

onde o mundo adormece de silêncio

e me esqueço do choro

da dor lilás dos que escurecem sem esperança.

 

 


e   ainda assim   ser

soleira

pedra

espuma

flor sobrevivente da geada ao meio-dia

 

 

voltar a casa

dobrar o olhar sobre uma carta de amor

um túmulo de aves

 

 

foto: Mikahil Batrak

sexta-feira, 19 de agosto de 2011





nenhuma clareira se estende ao verão.
a cidade avoluma-se de gesso pardo, quase imaterial. gente invisível
corpos  andantes, soprando a lentidão difícil da respiração.
aceno-lhes,  da anónima transitoriedade da luz que embrulha a tarde.
ninguém  nota. um degrau,  antigo de séculos, acumula-me.
 estou só  e é tão grande o peso do céu sobre a casa.
acendo uma palavra pura, uma palavra que seja o respirar de um pensamento
 para que a sua ressonância me toque o ombro
ou a minha boca se engravide de milagre.
porém,  aresta a aresta , ela esmaga-se contra um silêncio de esquinas pontiagudas.
então, a casa grita e um fio de sangue reduz a flor inicial a um objecto inanimado.
 tudo na memória  se perfila e é um rio que se move
 como um deus triste nos princípios de um sorriso.

- desde quando esta água é substância suicida dos instantes?

nenhum fogo fabuloso, nenhuma harpa no silêncio.
breve, tão breve como a  conjugação de um agosto sem aves

 eu, nocturna, regresso  onde o poema faz sombra.



tela: paulo ossião

terça-feira, 31 de maio de 2011






descalcei os pés para te falar.
sabes, mãe, aos domingos a terra respira  mais temperadamente o pranto dos homens.
 há pombas a sobrevoar a casa, uma a uma, como espadas brandas a baralhar o tempo para que o coração não pare. tu sabes, ainda sabes, que as perguntas me crescem no veneno dos dias comuns, e o barulho que antecipa o desamparo das noites é um garrote clandestino ao trânsito da tua voz. por isso, regresso sempre, como mendigo de luz à casa da inocência. ao pronunciamento dos grilos nas primeiras hastes da luz. e se a teoria do retorno é caso que a ciência não desvenda, o eco do lugar ergue-se aos dentes da manhã para que eu lhe responda, insuspeitamente, sem as alvíssaras dolorosas que a insónia me vai agrafando ao rosto.  mas nada flui do coração do desamparo: as cordas vocais estrondosamente pulsantes. as palavras pastosas na memória da boca, longe. longe e tão perto do tumulto rumoroso dos pés descalços nos fetos do pátio. os meus pulsos alongam-se, injustificadamente, na tentativa sempre imperfeita de te tocar. e todos os dias são omissos às pálpebras queimadas. os dias da casa  vazia  que me apaga lentamente de cúmulos. e todos os dias apareces, luminosamente, como se  dissesses que o fulgor das papoilas é um tempo mais breve que o instante em que florescemos. o meu filho ao teu colo, o caule da minha carne que te acompanha a raiz até ao pranto da terra.
deito-me a ouvir-te o coração. e finjo que me chamas para acordar.

 tela::gudiol

domingo, 23 de janeiro de 2011





seduz-me a ideia de um país de crentes
dizias tu.
estávamos à beira d`água sem saber nomear o rio
onde o nosso corpo afogava.


t: canada

domingo, 9 de janeiro de 2011





preciso das aves para fechar o dia.


imagino o inverno à volta do corpo

os seus dedos brancos, intermináveis,

o frio a mover-se

para dentro, como um lobo a arrastar-se pelas veias

e qualquer coisa insistente,

nocturnamente excessiva,

a deflagrar-se como centelha corrosiva pelo sangue.



a impotência, uma noite ampliada

a dividir-me a voz. os mortos que a cidade carrega,

as ruas, crispadas, com as mãos antigas do mar sobre o nome

e as palmeiras como almas sem pátria

fantasmas negligentes que as águas repudiam.



os passos da sombra agigantam-se sobre a volumetria das casas.

as mulheres, viúvas da alegria, pesam a sina pelo chão,

perturbadoramente

e um som espalha-se como fumo

no eco pobre da guitarra.



umas mãos que me prendem o nome, me exploram os olhos da ansiedade

e colidem com a rota esgotada de um pássaro

- vens amanhã? e eu não digo.

é o dia das promessas expiradas.



imagino o meu rosto dominado pelas chuvas

território absoluto da ignorância,

manifesto sem alineas consistentes

forçosamente branco



dispo-me e deito-me, inocentemente nua,

assim, como se fosse aprender a sonhar.


ft:  istván kerekes

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010



ao rui almeida

onde te abrigas? perguntavas.
eu dizia-te que as coisas se multiplicam
como matéria palpável de uma pele de espanto.
nela me deito e faço a cama do prazer em noites sem agasalho
com o embalo dos incêndios que me vão iluminando os dedos.
e se uma árvore me possui com os segredos dos pássaros nocturnos
que alimentam a minha sede, faço-me margem genésica de um rio
deixo crescer heras seculares e é a alma de um verde
que me sustenta os ossos em pastoreio para um desembaraço das sombras.

onde te abrigas?
- do desassossego dos teus olhos
faço um alfabeto a duas mãos e nele interdito a minha fome.
como vês, acumulo o sul à respiração dos dias
e dos tempos de nudez se faz um colo com música de Schubert.


ft: karen hollingsworth

segunda-feira, 15 de novembro de 2010




a ti, que imagino serena, regresso sempre, no verbo mais líquido


(..) e eu, que um dia te disse que a felicidade é coisa simples que se arquitecta no olhar da luz, desisto da artéria da manhã onde cansei a ilusão e o alinhamento criterioso do que vai caindo com o sol dos poentes sobre o pomar. e entrego-me. maré sem lua e mar - chão, onde os barcos são viagens nocturnas sem guião ou qualquer história que ainda lhe sustente o enredo, acrescento-me em dias febris como se a febre fosse a corrente que me sustem a sede. feita de sombra, raiz e nervo, albergo as noites sólidas que me vão comendo a pele. dolorosamente, como tu dizias, no caminho abandonamos ninhos onde descansamos o cansaço e ferimos as asas no entusiasmo do voo. esqueceste, na tua própria dor, que tudo o que nos habita é a severidade da memória e nela emparedamos as certezas com uma rosa de silêncio sobre a pedra.
não me leves a mal, mas agora que te dou razão, - a saber que a vida é um sopro de destino que trazemos ilegitimamente aprisionado à língua, do tanto que me nasceste e que me é o único logos, espero a palavra decisiva que explique a contenda que me (in)suporta o desejo de somar metáforas à obscuridade de existir: um nó cego de nervuras. e o que não é cama nem enxerga onde estender a lucidez, é apenas a sobra de quistos, quase antigos, onde a dor ainda lateja como verme vivo.
a virtude da vida consiste, apenas, no aceitar que estamos vivos? e se me abandonas, definitivamente, à invasão míope que entope o olhar com que respiro?
outra coisa mãe: arranquei as urtigas do quintal. um destes sábados podo as árvores.


t: gaudio

nota: circunstãncias afastam-me daqui algum tempo, mas o meu abraço a todos permanece inteiro. voltarei... :)

domingo, 7 de novembro de 2010





à graça pires
ao luís milheiro

viajamos sem fronteiras.
atravessamos todas as possibilidades
na raiz do livro mais branco.
magoadamente
escrevemos-lhe poemas apressados
flores que morreram antes das palavras venturosas
e partimos para a montanha do lado esquerdo do sol.
cheios de sede nada dizemos
que acrescente luz à sabedoria dos homens
não nos fica sequer o lugar para o eco impossível do adeus.
à guisa de epitáfio
assinamos com rubrica a nossa sombra.



ft: josé sanches parrales

nota: circunstãncias afastam-me daqui algum tempo, mas o meu abraço a todos permanece inteiro. voltarei... :)

domingo, 12 de setembro de 2010




sempre quis mais que viver sob um céu de colheitas breves
e tudo se resume ao febril gesto inaugural:
depressa esquecemos o estalo da luz sobre os ossos.
em parágrafos sublinhados redijo o itinerário nómada que nos cruza de abandono
na renúncia de qualquer convicção que incendeie vultos no meu sangue.
deixei no princípio da memória o corpo cansado de aves infelizes
quando sitiadas de silêncio no ardor da respiração.
um dia julguei existir na cintilação das certezas:
um inocente traço de giz a rasgar oficinas do azul
uma voz clara de fabulações sobre a doença dos dias.
desabito-me agora. como quem se acerta ao tempo de ser estrangeiro no seu hálito
próxima de um pressentimento de mudez absoluta.
a ilha que foi a minha voz colou-se à eternidade de coisa nenhuma.
assumo a memória das interrogações pretéritas: pergunta quem sou.
e deve ser este o futuro: persistir como um país obscuro.


ft: desconheço o autor/retirada da internet

nota: circunstãncias afastam-me daqui algum tempo, mas o meu abraço a todos permanece inteiro.

terça-feira, 18 de maio de 2010




às vezes falamos de um barco
e de uma língua que alastra à profundidade do azul.
dissolvem-se as trevas
recebe-se a luz com o deslumbre de um parto.
em sobressalto a água exulta
para que o corpo realize o mistério do mundo.

mas a noite chega carregada de enigmas
e um arpão na boca


então a voz sibila dos milénios
os séculos da dor
e os dedos são rastos negros
como mastros
envelhecidos.

às vezes falamos de um barco
e é só um barco.
ao desfalque do olhar
exalamos a cronologia do corpo
e prometemos:
amanhã acordo cedo e remendo a vela antes dos prantos.


t: v. skrypka

segunda-feira, 5 de abril de 2010




quando cai o pano sobre o ruído do dia
um astro colide na têmpora da terra.
inocentemente
desce a rua
aberta aos presságios da cidade
__ uma mulher de branco
cruza-se nas pálpebras da noite.
traz com o sopro do mar
a história dos amantes
e um ensaio de dedos
terrivelmente abortados de escuridão.
só os olhos refulgem:
incessantes recados
na amantíssima relação das sombras.
é uma mulher a esvair-se de branco
à procura de um leito de poeiras para morrer.


foto: autor desconhecido ret da net

sexta-feira, 12 de março de 2010




pouso no silêncio
como uma árvore de outono
finjo adormecer o coração

no susto da noite
as palavras são dedos insurrectos
dentro do nosso exílio

reduzo-me à pronúncia
de um dialecto mudo sobre o mundo

na nudez inocente
é tão lento o instante de um pássaro
com odor de fêmea!


foto: katia ch e a. araujo

domingo, 17 de janeiro de 2010




se soubesse escrever a matéria do silêncio
dir-te-ia de uma língua demente e excessiva:
a feroz biografia das contradições da luz
a agigantar-se contra os lábios.



foto: federico bebber

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009





órfãos
mendigamos ao céu o código de uma estrela:
um ventre redondo onde semear um campo de lírios.

e nascemos nus.

os lábios de veludo contra a neve
e a lucidez de um cabaz de frutos loucos
a esterilizar a voz.
uma asa aguda corta o renque de luz
o ímpio desterro é o berço onde o corpo adormece.
caos e orfandade
um pulso carnívoro a devorar o milagre.

assim nascemos da humidade da noite
com uma genética fome nos olhos
e a absoluta cegueira das mãos

e nascemos nus
rosas brancas com um corpo de incêndio.



a todos
um Natal redentor. de pródiga luz



foto : autor desconhecido. retirada da net
e Anunciação de Bento Coelho

terça-feira, 1 de setembro de 2009


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tocar a noite
e o seu silêncio sacro
cognitivo dos instantes.

ser pérola
em mãos relâmpago
a florir os tumescidos seios da madrugada.

atingir o imponderável momento de ser luz.


ft: carlos silva

quinta-feira, 18 de junho de 2009



...................
às vezes as flores abrem-se tão tristes
ao zumbido das abelhas
que o sol se exila
como uma ilha pronunciada.
e o poema

[prisioneiro

não consegue respirar.


ft : autor desconhecido

sexta-feira, 5 de junho de 2009


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recompostos de vento
surgimos do sinuoso obscurecimento.
trazemos uma matéria espessa colada às lágrimas
o embuste que embacia os lábios
e um rosto como um adeus
alongado pelo salitre do mundo.
pousamos o indecifrável nome das coisas
sequer a razão das fugas.
afinal quem fomos o que somos?
nós que um dia decidimos a trajectória dos passos pelos sinais do azul
obstinados no caminho onde os sussurros são mais cúmplices.
perseguimos a verdade de coisa nenhuma.
como companhia a incomensurável solidão das árvores
quando o sol se inclina com o peso das mãos cheias de febre.
quem somos se não sabemos regressar ao riso iluminado das crianças
à geografia de uma pátria que julgámos eterna?

recompostos de vento
surgimos para o lugar de nadas
as pálpebras cansadas de corpos invisíveis
até que a terra desperte de um doentio sono.

ft : kay holtmann

quarta-feira, 29 de abril de 2009



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ft: j carlos da silva ramos

quarta-feira, 22 de abril de 2009



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ft : c. serra