preciso das aves para fechar o dia.
imagino o inverno à volta do corpo
os seus dedos brancos, intermináveis,
o frio a mover-se
para dentro, como um lobo a arrastar-se pelas veias
e qualquer coisa insistente,
nocturnamente excessiva,
a deflagrar-se como centelha corrosiva pelo sangue.
a impotência, uma noite ampliada
a dividir-me a voz. os mortos que a cidade carrega,
as ruas, crispadas, com as mãos antigas do mar sobre o nome
e as palmeiras como almas sem pátria
fantasmas negligentes que as águas repudiam.
os passos da sombra agigantam-se sobre a volumetria das casas.
as mulheres, viúvas da alegria, pesam a sina pelo chão,
perturbadoramente
e um som espalha-se como fumo
no eco pobre da guitarra.
umas mãos que me prendem o nome, me exploram os olhos da ansiedade
e colidem com a rota esgotada de um pássaro
- vens amanhã? e eu não digo.
é o dia das promessas expiradas.
imagino o meu rosto dominado pelas chuvas
território absoluto da ignorância,
manifesto sem alineas consistentes
forçosamente branco
dispo-me e deito-me, inocentemente nua,
assim, como se fosse aprender a sonhar.
ft: istván kerekes