domingo, 16 de junho de 2024

 


Descer à terra e provavelmente, de bruços, encontrar água...
Maria Quintans

demoro-me na distância

que vai de uma palavra à outra.

ponho-as lado a lado

comparo-lhes a luz e as feridas.

um sol dominante, como um cavalo

rasga o abacateiro do jardim

atravessa os quadrados da vidraça

 e sobe-me até ao último músculo da face.

sobre a mesa uma clareira aberta

desenha círculos sobre círculos

onde pedras e frutos se acumulam.

exponho-me à rota de colisão

quando os verbos soltam as velas intempestivamente

 

mas o corpo é um casulo sem intenção

as mãos permanecem inocentes no seu exílio.

 

nada se guarda que distribua as sementes

à generosidade das águas.

 

despida, sem abrigo, confio à terra a possível ressurreição.

 

foto: Andrea Kiss