Descer à terra e provavelmente, de bruços, encontrar água...
Maria Quintans
demoro-me na distância
que vai de uma palavra à outra.
ponho-as lado a lado
comparo-lhes a luz e as feridas.
um sol dominante, como um cavalo
rasga o abacateiro do jardim
atravessa os quadrados da vidraça
e sobe-me até ao último músculo da face.
sobre a mesa uma clareira aberta
desenha círculos sobre círculos
onde pedras e frutos se acumulam.
exponho-me à rota de colisão
quando os verbos soltam as velas
intempestivamente
mas o corpo é um casulo sem
intenção
as mãos permanecem inocentes no seu
exílio.
nada se guarda que distribua as
sementes
à generosidade das águas.
despida, sem abrigo, confio à terra
a possível ressurreição.
foto: Andrea Kiss
