quarta-feira, 13 de abril de 2016



" Tantas coisas desapareceram
que nunca mais voltará a desaparecer
nada do que merece viver. "

Paul Éluard



sou hoje a passageira alheada de um comboio
sem paragens. se parar o olhar
a terra ecoa ainda o suor de luas  longínquas.

mas chove e não há sombra de variação
sob o tremor que as mãos desaguam no silêncio.
o tempo é voraz. tem consigo a profecia e a poeira:
o veneno que amputa a palavra  absoluta 
 - a música inteira.

dizem que é assim.
nenhuma ferida se alicerça em lugares
onde os versos libertam aves.

do lado esquerdo
há cidades infinitas. os muros  imaculadamente brancos
tremem e explodem-me no peito.
perpetuam-se como mastros definitivos
à velocidade da carruagem  e da ventania.

a luz tem o peso da memória que nos entra pelos olhos.
 foto: laurence winram