segunda-feira, 21 de dezembro de 2009





órfãos
mendigamos ao céu o código de uma estrela:
um ventre redondo onde semear um campo de lírios.

e nascemos nus.

os lábios de veludo contra a neve
e a lucidez de um cabaz de frutos loucos
a esterilizar a voz.
uma asa aguda corta o renque de luz
o ímpio desterro é o berço onde o corpo adormece.
caos e orfandade
um pulso carnívoro a devorar o milagre.

assim nascemos da humidade da noite
com uma genética fome nos olhos
e a absoluta cegueira das mãos

e nascemos nus
rosas brancas com um corpo de incêndio.



a todos
um Natal redentor. de pródiga luz



foto : autor desconhecido. retirada da net
e Anunciação de Bento Coelho

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009




sou cúmplice de uma pele antiga como a água:
não sei falar de ti sem que se dilate a gravidez de um rio.
pergunto como se desfaz a memória das mãos
quando a terra é um vulcão a abrigar a melopeia das aves.
inclino-te sobre um fogo repartido que ainda me arranha o corpo
para reconstruir-te de silêncio no descalabro do frio.
e assim como se prendesse uma palavra vagabunda
vou segurando a tua voz no final de um verso longo.
de quando em vez reconheço-te como sinuosa sombra
presa fácil de um rumor de fogueira antiga
que insistentemente transgride o pousio do meu corpo:
o lugar mais nómada onde hoje a noite queima.
ft: duarte. s e ana rita vaz

domingo, 6 de dezembro de 2009




ouve:
o meu corpo adormece no que sobrou de pequenas sílabas.
nada digo que exceda as mãos possuídas de noite.
entre o credo e a confissão
o esquecimento é uma lua de chuva
que se dá à direcção caprichosa do vento.
sei-me longe das margens
da voz que me trazias nas manhãs para nascer
quando ainda não sabia que o destino das aves
é a ferocidade do sol e um país no exilo das línguas.
o eco é uma ferida na atracção dos espelhos.
um dia dar-me-ei ao silêncio mais profundo que emana das águas
e serei sua amante. cativa do sal que cristaliza a carne
serei do mar as líricas vogais de marinheiros sem porto.
dir- me-ás que o rio é uma canção triste a um caminho tão longo
mas tu não sabes ainda da água que se prende à minha sombra
como uma árvore onde a noite é mais perfeita.
e deixa que te diga: como morcegos contra a luz
um a um morreremos
com os incêndios do céu.



fts: carlos vicente

domingo, 29 de novembro de 2009





na infinita parcela do amor
só um instante
ocupa o fulgor do deslumbramento.

para que os lábios
esqueçam o pronunciamento da mágoa.


fts: pereira lopes/ marcelo marques

domingo, 22 de novembro de 2009



à Graça Pires

importa a palavra.
e as mãos
alagadas de margens
as aves atravessam-nas a estremecer o olhar.
cúmplice
um silêncio vadio é princípio de todas as árvores.


maior
o símbolo das asas
a incidir sobre as águas.

ft: m.p.pereira

domingo, 15 de novembro de 2009



carta para além das estrelas
( é onde tu moras, não é?)

ontem não te falei, eu sei. não te sinto triste à negação dos diálogos. tu sabes, sempre soubeste, que a minha voz tem coisas de menina quando se nega a escrever os picos mais altos da noite ou os danos escuros no chão. ficas parada, a olhar-me com esses olhos de mundo e uma asa estendida a prevenir a espessura do meu sangue.
dos teus onze filhos, sempre me soubeste os olhos mais acesos, os lugares da inquietação, as peregrinações feitas de sede, as escarpas que se abrem nos caminhos, como facas.
falamos quase sempre deles _____ cuida deles, disseste, a ser asa escrevente. ou sobrevivente caminho de promessas. feitas lei. enlacei as mãos ao coração do teu silêncio e ousei os caminhos mais maduros da lucidez.__ vês que fui capaz? às vezes o vento sopra forte a confundir-me o mastro. a tentação das sereias é um chamamento lírico que me arrasta até o fundo, mas a tua voz antiga ___ cuida deles, soa com a orientação dos mapas e encho os bolsos do alfabeto inteiro que me ensinaste, a esculpir a pedra onde o teu rosto é uma casa.
ainda receio as pegas que me anunciaram a tua morte, os labirintos do medo que se escondem pela pele, mas o pinheiro dá-me a condição das aves para amanhecer os dias aprisionados de voragem das cinzas e escrever outros destinos à vigília das manhãs. rego o entardecer do corpo com as memórias do único fogo que me mostraste, também ele a escrever a dor no caminho nocturno dos barcos.
talvez seja mesmo assim: o caminho dos pássaros é o destino do silêncio maior das águas.



foto: sdm

terça-feira, 10 de novembro de 2009


cartografo o teu corpo na memória intransigente das sílabas.
a mão demora-se-me sobre os lábios.
ouso tocar-te: a revelar o coração como quem lavra a terra
a afastar as aves infelizes da tua pele.
ainda não te havia pronunciado
e o deslumbramento da noite
fez-se esta tremura de silêncio
como se fosses um destino ferido
à mínima movimentação dos dedos.

ft : el paso

segunda-feira, 2 de novembro de 2009




conduzo um diálogo de sombras
um louco mapa traçado de alegorias:
as mãos adormecidas como signos breves
a pele triste ao abandono do riso
e por fim o teu olhar ferido com a brandura da morte.
que força nos gravita para a memória do vazio?
cúmplice do abismo a tarde fere-me a carne
com o peso dos teus escolhos.
amarrada às raízes que me desertificam os olhos
a proximidade da noite é essa hora de ponta
onde o teu corpo me atinge.


ft : autor desconhecido / em baixo: marta ferreira

domingo, 25 de outubro de 2009






estalo essa rubrica que se fez espanto no meu corpo
depois, deixo o vento viciar a embriaguez
que ficou dos frutos doces sobre a pele
e escrevo um pulmão novo sobre os lábios.
marco a distancia que interdita o teu corpo à insensatez das minhas mãos
e como se fosse feita de barcos
recolho a luz embaciada de outras luas
para queimar as noites mais antigas
onde um rumor de fogo a sul adormece a ousadia de outra rota.



fts: mário rocha e marta ferreira

domingo, 18 de outubro de 2009




segreda-me
com a música dos dedos
a transparência do vento
quando embala os instantes do amor.
deixa que a noite respire com mãos de lua
a curva do meu ventre.

e trémulo
invade o meu corpo
com as febres de Outono.


ft : erg chebby

quinta-feira, 8 de outubro de 2009





quando a noite me restituir o silêncio sem rosas do teu corpo
com estas mãos de terra escreverei a foice sobre as águas
onde ancorei um dilúvio de ilusão.
as pálpebras de antigas madrugadas
falar-me-ão da doçura que mergulha o esquecimento
e dos caminhos onde envelheces lentamente.
depois saberei que nenhuma palavra guardará a tua imagem.
dir-te-ei: olha meu amor
a noite abriu-se na queimadura dos dedos.
vê como emudecem as nossas bocas.


ft: paulo ossião

sexta-feira, 2 de outubro de 2009





apago os dias incendiados
o gorjeio ensandecido no rasto da tua boca.
reescrevo quase tudo.
a noite agora traça vínculos uterinos no meu corpo
com o sangue de uma folha que me cai no colo.

o outono cresce
como um sono premeditado:
derradeiro regurgitar dos pássaros.


ft ana almeida s.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009




tinham-lhe dito que a alma era uma casa com janelas verdes.
ela sentava-se a bordar letras na ternura de equinócios
quando a casa adormecia despida e branca
à espera de um outro lado na geografia da noite.
ao toque das três badaladas
um relâmpago sobre o prado.
ele chegava com as mãos agridoces
cavalo selvagem no dorso da insónia
derrubando quixotescos moinhos com uma espada de prata
e todas as palavras ferviam .
como uma voz que acordava do sono.
a noite transpirava o sumo das estrelas
rebentavam marés na quilha dos barcos.
a noite era uma variação que saía da pele
entre um poema de Rilke e uma nota lancinante de Creep…


que nome dar à noite deste rosto
a esse poema desfeito?
__a gramática é uma memória entre os olhos
quando a chuva chega e se desencontra do fogo.


é tarde na eira de todos os verbos
na bússola que indica o rumor dos ventos sobre o mar.
arruma lentamente as metáforas na rota indecisa dos barcos
com um manso choro de búzios
ou um queixume de sereia prisioneira de fábulas
e deixa à redenção da noite o trajecto precário da luz.



ft: joão p redondo

quarta-feira, 16 de setembro de 2009



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pensava:
crescemos dentro da noite
enquanto os bichos se alimentam.
sentava-me no cais para um derradeiro adeus
dizia sempre: o último!
e a força da manhã recolhia-me o gesto
na lentíssima corrosão dos dedos.
somos uma luz breve
[repito-me ainda
tão breve
que entre um cais de chegada e um apito de partida
nos tornamos fictícios.
fecho os olhos a esta claridade insustentável
a mão suspensa num movimento do quase.
perdida a determinação de te seguir
nem o mar sustenta a crença:
se olhasse ao longe a entrada da barra
veria os barcos rasgarem-se de lágrimas.


ft : anke merzbach

terça-feira, 8 de setembro de 2009



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demoro algum tempo. um pé à frente
outro indeciso
cautelosamente.
pensar o gesto
que me afastará o tempo do fogo
é adormecer a memória à luz das águas.
cúmplice, só a mera passagem embrionária
de uma brisa
ousará tocar-me as pálpebras.
em definitivo
há a incalculável matemática do luto das palavras
e um silêncio que cresce dentro de si mesmo.
nem sei se é preciso algum passo mais,
ou se a vigília de uma noite de lua cheia
bastará para explicar as penumbras de Setembro.


ft : judith tomaz

terça-feira, 1 de setembro de 2009


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tocar a noite
e o seu silêncio sacro
cognitivo dos instantes.

ser pérola
em mãos relâmpago
a florir os tumescidos seios da madrugada.

atingir o imponderável momento de ser luz.


ft: carlos silva

segunda-feira, 24 de agosto de 2009



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porque há um azul mais fundo
laboriosamente escrito no meu corpo
confesso-te os vestígios da saliva de um pássaro.
a ternura adiada nas minhas mãos
é a preservação das árvores
que se curvam sobre si mesmas :
as sombras de uma memória de sol
no labirinto inseguro das aves
ao reconhecimento dos ninhos.



ft : susan marques

segunda-feira, 17 de agosto de 2009



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esta manhã sobra tudo de mim
ou nada me cabe.
talvez a noite
com a usura do seu casaco longo
tenha ancorado como um passageiro no meu corpo
e derrube os intervalos da febre.

sei que as aves podem ser ondas
nas fronteiras de outras mãos
mas é tarde na minha voz para nidificar outro nome.
neste parapeito onde descanso os olhos
há um desfocar súbito do futuro
que reforça a teoria de Heráclito :
a água passa e nunca lambe as mesmas asas.



ft : artur bual

domingo, 9 de agosto de 2009



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apenas eu
e tu
esse tratado de morte consentido
que um dia foi lavra
sede
permuta de asas.

este pedaço de terra
nenhum lugar florescendo.

anónimos
desta memória das chuvas
tu e eu
apenas um página
subitamente ferida
da confissão das aves.


ft : vic vincenty

domingo, 2 de agosto de 2009


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a noite crescia
eu escrevia.
a noite falava pelo silêncio das árvores.
lado a lado a respiração e a sombra
a colheita da luz nos pulmões de julho.

o meu corpo apreende a voz deste lugar
a soma singular do fogo e do silêncio.
e a noite amamenta-se das minhas mãos
como um pássaro que se suicida na vertigem do seu voo.



ft: judith tomaz