domingo, 9 de janeiro de 2011





preciso das aves para fechar o dia.


imagino o inverno à volta do corpo

os seus dedos brancos, intermináveis,

o frio a mover-se

para dentro, como um lobo a arrastar-se pelas veias

e qualquer coisa insistente,

nocturnamente excessiva,

a deflagrar-se como centelha corrosiva pelo sangue.



a impotência, uma noite ampliada

a dividir-me a voz. os mortos que a cidade carrega,

as ruas, crispadas, com as mãos antigas do mar sobre o nome

e as palmeiras como almas sem pátria

fantasmas negligentes que as águas repudiam.



os passos da sombra agigantam-se sobre a volumetria das casas.

as mulheres, viúvas da alegria, pesam a sina pelo chão,

perturbadoramente

e um som espalha-se como fumo

no eco pobre da guitarra.



umas mãos que me prendem o nome, me exploram os olhos da ansiedade

e colidem com a rota esgotada de um pássaro

- vens amanhã? e eu não digo.

é o dia das promessas expiradas.



imagino o meu rosto dominado pelas chuvas

território absoluto da ignorância,

manifesto sem alineas consistentes

forçosamente branco



dispo-me e deito-me, inocentemente nua,

assim, como se fosse aprender a sonhar.


ft:  istván kerekes

18 comentários:

AC disse...

Sente-se o desenho da asfixia, com as palavras a tentar de respirar, a soprar para lá as sombras...
Belo, denso e intenso...!

Beijo :)

Maria disse...

Intenso dedilhar pelo anoitecer até ao sonho possível.

Beijo, Maré.

Luis Eme disse...

lindo...

que saudades de te comentar, Maré.

beijos

© Piedade Araújo Sol disse...

sei que me repito...mas, nunca é demais dizer e escrever, que és um expoente máximo da poesia...

acho que a Gabriela vai sentir-se muito feliz em ler este trabalho.

parabéns às duas.

uma boa semana e um

beij

Mar Arável disse...

e assim se fez luz

Bj

Virgínia do Carmo disse...

Linda forma de tecer palavras, Maré... sempre como se fosses aprender a sonhar - ou como se os sonhos te fossem aprender...

Um beijinho!
[feliz por poder deixar de novo o meu rasto no eco das tuas palavras]

Jaime A. disse...

o sofrimento mantém-se e a dor não pára, nem sequer é agradável: tudo a chuva domina...

Graça Pires disse...

"umas mãos que me prendem o nome, me exploram os olhos da ansiedade".
Belíssimo!
Existe uma geografia de sangue rasgada em tuas mãos e ninguém pode decifrar os desertos imensos com que povoas o corpo de sossego...

lupuscanissignatus disse...

a inquietação

das

aves


[ensina-nos
a sonhar]


*um beijo,
Maré*

maria manuel disse...

belo e excepcional este poema para a Gabriela, que vai gostar muito!

por entre a ferocidade do inverno e os passos a arrastar o destino pela cidade moribunda, sempre chagamos ao fim do dia como pássaros feridos. e, no tentanto, precisamos de sonhar, de continuar... «preciso das aves para fechar o dia» e, diria, também para começar outro.

beijo, querida Maré.

maria azenha disse...

tão lindo, Luisa:)

Beijinho,

mariah

heretico disse...

muito bem. sente-se o poema a crescer. por dentro...

gostei muito.

beijos

JOSÉ RIBEIRO MARTO disse...

Belo , maré , um poema muito vivo , que leio devagar , ao sabor das palavras ...
abraço

gabriela r martins disse...

tchiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii,Luísa!

confundes.me ,minha querida!
na alegria de ler.te

no gosto imenso de voltar a comentar.te

na minha pequenez face à tua dedicatória e
,sobretudo
,perante o teu excelente poema



rendo.me ,gratíssima e sem palavras



.
um beijo
( não voltes a desaparecer ,prometes? )

pin gente disse...

quando as palavras despem a inocência

um beijo

A.S. disse...

As minhas mãos de arminho, brincam com as palavras de uma rainha, inocentemente nua, e vão banhar-se no lago do luar, como se fossem também aprender a sonhar...


Um beijo!
AL

alice disse...

estás no teu melhor, diria eu que não sei nada e só sei sentir!

tudo aqui é beleza pura!

Anónimo disse...

belíssimo!


beijo.



mjq