domingo, 12 de setembro de 2010




sempre quis mais que viver sob um céu de colheitas breves
e tudo se resume ao febril gesto inaugural:
depressa esquecemos o estalo da luz sobre os ossos.
em parágrafos sublinhados redijo o itinerário nómada que nos cruza de abandono
na renúncia de qualquer convicção que incendeie vultos no meu sangue.
deixei no princípio da memória o corpo cansado de aves infelizes
quando sitiadas de silêncio no ardor da respiração.
um dia julguei existir na cintilação das certezas:
um inocente traço de giz a rasgar oficinas do azul
uma voz clara de fabulações sobre a doença dos dias.
desabito-me agora. como quem se acerta ao tempo de ser estrangeiro no seu hálito
próxima de um pressentimento de mudez absoluta.
a ilha que foi a minha voz colou-se à eternidade de coisa nenhuma.
assumo a memória das interrogações pretéritas: pergunta quem sou.
e deve ser este o futuro: persistir como um país obscuro.


ft: desconheço o autor/retirada da internet

nota: circunstãncias afastam-me daqui algum tempo, mas o meu abraço a todos permanece inteiro.

34 comentários:

AC disse...

O estado de interrogação é uma condição permanente da nossa demanda. Sendo certo que o obscuro é previsível, pois consta do equipamento inicial, resta saber se há determinação para tentar almejar a suposta recompensa, ainda que incerta...

beijo :)

Lídia Borges disse...

Um tom melancólico perpassa o poema e faz-nos parar, atentos, na curva dos versos.

Gostei muito!

isabel victor disse...

Muito bom ;)

Vou passando ...


iv

Luis Eme disse...

as coisas estão muito assim, mas enquanto existirem caminhos livres, podemos perder o olhar pelas coisas belas, que sobrevivem a todas as crises...

beijos Maré

Ana Oliveira disse...

Um abraço

e sempre voltando...

Leonardo B. disse...

[estranho o dia que não nos interroga, estranhas as mãos que não o tomam como seu: na palavra, é mais que o dia, o que se imprime]

um imenso abraço,

Leonardo B.

Maria disse...

Fizeste-me falta. Saudades de te ler...

Abraço, forte.

Graça Pires disse...

Talvez "a eternidade de coisa nenhuma" seja a ilha que ao mar baste para o itenerário dos barcos sem destino...
O teu poema é excelente. Já tinha saudades de te ler.

Obrigada pelos teus comentários, todos eles poemas também.
Um grande beijo, miúda.

Graça Pires disse...

Quis escrever itinerário, claro.
Beijos.

alice disse...

os teus poemas provocam efectivamente uma mudez inexcedível. um beijinho.

Me Hate disse...

Bem-vinda(o)... as saudades faziam notar-se...

Não seremos sempre míopes no que diz respeito ao mundo e ao outro?

Não seremos todos padecedores de alguma doença degenerativa que alimenta a falta de memoria?

Não estaremos sempre mudos de tanto falar?

...

...

...

Regressámos todos às questões, e ainda bem que assim é... o espirito avança...

Um forte abraço.

© Piedade Araújo Sol disse...

o que interessa é que estás cá de novo. confesso que sentia saudades de ler-te.

escreves sempre bem, embora o poema seja melancolico, eu gostei.

um beij

Mar Arável disse...

Bem-vinda

Não somos piratas

somos corsários

Bjs

simplesmenteeu disse...

como voz desafinada em terra de ninguém...
ou corpo escorrido na praia breve dos sentidos.

atrás do nevoeiro ou das nuvens densas há sempre um giz a rasgar estrelas, é só esperar o clarear do olhar.

também tinha saudades de te encontrar...
beijinhos

Luana disse...

Sinto hoje a tua cheia de tristeza!
Um beijo, até breve..;)

lupussignatus disse...

revolves

o presente

com o arado

da indagação



*um beijo, Maré*

gabriela r martins disse...

a excelência como bitola quando todas as palavras são de menos....



.
um beijo
( e não voltes a tardar ,"please!" )

Nilson Barcelli disse...

Excelente poema.
Estás a escrever cada vez melhor.
Parabéns, querida amiga.
Beijos.

maria josé quintela disse...

sempre quisemos viver eternamente. mas só porque o sabemos impossível. e no entanto todos os dias renunciamos o único dia que é sempre o último dia. dia presente e futuro.

um beijo grande.

heretico disse...

..."febril gesto inaugural".
persiste o verso. interpela-me. em sua musicalidade vibrante.

... fora a vida uma sucessão de "gestos inaugurais".

belíssimo poema.

gostei muito
beijos

Virgínia do Carmo disse...

Maré, confesso que senti falta destas palavras, que nem conhecia ainda...

Sou feliz hoje, pelo teu regresso

Terno abraço

Henrique Dória disse...

OLádoce maré. Bom voltar aqui, à intensidade dramática da tua poesia. Um dia destes dou um salto a Estarreja para nos encontramos. Beijos

Nilson Barcelli disse...

Passei para te ler...
Querida amiga, boa semana.
Beijos.

KrystalDiVerso disse...

Gosto desses comentários cheios de consideração que aparecem por aí: "Muito bom, passei para te ler, que é como quem diz, passa no meu blog senão choro; escreves cada vez melhor, o que pressupõe que escrevia muito mal; lindo poema...
Custa-me a entender esta gentinha que parece ter decidido viver disto, da hipocrisia, fazendo-o com todo o a naturalidade!!!!...


Acredite, dar Poemas inteligentes e com Alma, a gente desta, aceitando comentários desse género vazio, é dar as tais pérolas a porcos!


"...um dia julguei existir na cintilação das certezas:
um inocente traço de giz a rasgar oficinas do azul
uma voz clara de fabulações sobre a doença dos dias."


Acha que essas "coisas" que por aí se arrastam têm capacidade ou, pelo menos, vontade de perceber censuras e liberdades, e dores de Alma, ou a diferenciação das cores, e das aves, das quais algumas... voam ou pretenderam voar?!... Enfim...
Aceitar e publicar comentários tão inúteis é uma traição desferida sobre as próprias convicções!
É um forte lápis azul ao serviço da anarquia.



Boa Semana




Escolha entre... beijos e abraços

pin gente disse...

vivemos num eterno manto de dúvidas.
o sim, o não e o maldito que entre ambos habita.

um beijo
luísa

maria manuel disse...

bom regresso, Maré!
sempre um deslumbramento ler-te. silencio perante as tuas palavras, as tuas imagens tão plenas de sentidos, teu poema de desencanto, de interrogação permanente. gosto muito.

beijo grande.

Carlos Ramos disse...

É um texto bem conseguido. Flui...

ausenda disse...

A mudez do corpo é por vezes a trave que nos equílibra na saturação dos dias...tristes!!!

:)
Abraço

tecas disse...

Magnifico poema! Melancólico e transparente, marcando dúvidas que invadem o espirito dos poetas.
Consegui encontrar as Marés de Espanto...cheguei cá pelo blog da Alice.
Gostei de conhecer a sua escrita e...de a conhecer pessoalmente.
Bjito amigo

Fluzão Eterno disse...

Tenho um blog sobre curiosidades e gostaria de saber de você se haveria a possibilidade de você me ajudar
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no Rio de Janeiro,
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maria manuel disse...

voltei para reler e deixar um beijinho.

Luis Eme disse...

«subi a estrada três vezes, as mesmas que desci. e não te encontrei.

podia ter tocado à campaínha, mas irrita-me o ladrar dos cães que fingem não gostar de mim.»

beijos Maré

Canto Turdus Merula disse...

Instância que se faz distante

ânsia da circunstância

quando se é desdobramento nos múltipos de ser ilha

A.S. disse...

Entre o sim e o não, há um vazio que nos deixa nus... talvez não seja por acaso!


Beijos!
AL